Padrão japonês de TV digital é tecnicamente aquele que tem mais vantagens a oferecer. Vejamos como.

 

Para discutir qual é o melhor modelo de TV digital para o Brasil, entre o japonês, o americano e o europeu, é preciso separar o “Modelo de TV Digital” da “Tecnologia de TV Digital”. Em termos de Modelo de TV Digital, o sistema japonês, mais moderno, sai na frente, uma vez que oferece maior flexibilidade no uso da banda de 6MHz para transmissão de TV Digital (pensando em atender um ambiente com TVs estáticas em casas e aparelhos móveis). Uma das vantagens do sistema japonês são seus modos de transmissão, que não se limitam a um valor fixo por estação de transmissão, podendo variar de 2K a 8K, o que na prática, se traduz em flexibilidade, uma vez que os receptores possuem diferentes capacidades e recursos para recepção de dados, TVs são diferentes de Celulares, por exemplo.

Isto significa que em uma mesma faixa de 6MHz licitada junto a ANATEL seria possível que uma empresa de mídia possa transmitir o mesmo conteúdo para diversos tipos de receptores (TVs, PDAs, receptores móveis, celulares, etc.). Este tipo de flexibilidade não é oferecido pela tecnologia dos dois outros padrões e pode representar uma diferença fundamental para a aceleração da adoção e na consolidação do modelo de TV Digital - quanto mais simples e mais variado for o uso da mesma faixa de transmissão, mais rápida será a adoção do modelo de TV Digital (com maior oferta de produtos e opções para o consumidor final), uma vez que as variáveis em torno do modelo são menores. O modelo da TV Digital europeu, por exemplo, adicionaria mais um ponto à discussão, a transmissão para dispositivos móveis, já que ele, o modelo europeu, desvincula TV Digital móvel da TV Digital terrestre.

Já o padrão americano, embora privilegie a alta resolução, não oferece qualidade de transmissão em uma geografia como a brasileira e sua tecnologia chave de transmissão, 8VSB, não oferece a mesma qualidade técnica dos padrões concorrentes, o que acaba por impactar diretamente também o modelo de TV Digital proposto pelos americanos (mais voltado à qualidade da imagem e não da recepção), além de não priorizar a universalização e interatividade da TV Digital. Além disso, diversos testes amplamente divulgados mostram de forma clara que o padrão japonês é o mais robusto em termos de qualidade de transmissão, o que o coloca na frente dos outros padrões se considerarmos uma geografia e topografia tão diversa como a do Brasil.

Em termos de interatividade, todos os três padrões são bem parecidos, ou seja, todos são limitados pela forma como oferecem interatividade. Interatividade, por sinal, também não é uma questão simples. Existe a interatividade local, ou seja, recursos como imagens e textos, que podem ser transmitidos pela emissora junto com o vídeo, se integram ou interagem com o middleware das Set-Top Box de recepção (as famosas “caixinhas” entre a TV e a rede). Neste caso os padrões se equivalem bastante, pois todos são capazes de transmitir textos e imagens no espaço de dados alocado para uma faixa de 6MHz.

Existe também a interatividade intermitente, em que o usuário usa um canal de retorno não permanente para interagir, como a linha discada ou o celular. Este tipo de interatividade é um desafio para todos os padrões, pois implica em custos adicionais para o usuário e, do ponto de vista de quem oferece o serviço, acrescenta uma camada adicional à sua rede transmissão de TV Digital. Quando a interatividade é permanente o usuário deve possuir um canal de retorno sempre disponível, como em serviços ADSL (Speedy em SP, BrTurbo em Brasília) ou Cable. O mecanismo do canal de retorno não impacta na rede de transmissão de TV Digital, pois é feito por outro canal, ou seja, uma outra rede de dados.

Em qualquer das interatividades, devemos considerar que o componente-chave é a Set-Top Box e, neste caso, os três padrões tratam a questão interatividade da mesma forma - por software - todos os desafios com relação à interatividade precisam ser resolvidos por software embarcado, middleware ou aplicativo, mas software. Uma grande oportunidade para o Brasil, diga-se de passagem, o que seria assunto para um outro artigo.

Costuma-se dizer que a TV Digital européia é mais rica em interatividade, mas isto não é necessáriamente uma verdade, é uma impressão. As TVs pagas no Brasil, que adotam o formato europeu de TV Digital, já oferecem serviços de interatividade que são independentes da forma como os dados da TV Digital são distribuídos. Os recursos de interatividade fazem parte da programação do produtor de TV e são tratados pelos software da Set-Top Box para conectar o usuário ao canal de retorno da emissora – uma rede IP no caso, separada da rede de TV.

Visto assim, fica claro que o Brasil vai ter que solucionar a questão da interatividade resolvendo um problema maior, que é a universalização e facilitação de acesso à rede de dados IP (dial-up, celular ou banda larga), assim como desenvolver sistemas de software para os Back-ends de aplicações das emissoras para oferecer o formato desejado de interatividade do nosso modelo de TV Digital (votação do Big Brother, escolha do melhor jogador da partida, etc.) – aqui o fato de a TV Digital ser européia ou japonesa é uma questão menor.

Pela mídia, sabemos que as empresas de radiodifusão preferem o modelo japonês. Podemos imaginar as razões dessa preferência. Parece ser uma forma de se evitar que as Telcos (grandes empresas de telefonia e telecomunicações) se tornem concorrentes no modelo de distribuição de conteúdo, o que poderia tornar o já congestionado mercado de propaganda e anúncios – principal fonte de renda das empresas de radiodifusão – mais competitivo, complexo e, quem sabe, inviável. Como vimos, o mercado do “retorno da interatividade” já é ocupado pelas Telcos, que tendem a dominá-lo. Dividir com elas o mercado de distribuição de conteúdo não deve parecer uma boa idéia para as empresas de radiodifusão.

Pode-se ainda imaginar que a competição convergente que se estabelecerá entre as emissoras e operadoras de telefonia com o padrão japonês tenderá a fazer com custos e preços baixem, na medida que composições e alianças se estabeleçam. As emissoras dependem das operadoras para promover interatividade e criar novos fluxos de renda. As operadoras fora do mercado de distribuição de conteúdo, teriam que dirigir seus investimentos no suporte à interatividade (conexão) e não em criação/distribuição de conteúdo, o que poderia significar para o consumidor mais acesso e acesso mais barato à redes de dados em banda-larga.

Acreditamos que, no final, a qualidade técnica vai prevalecer e aqui vence o padrão japonês, pois é ele que tecnicamente oferece a melhor qualidade de transmissão de som e vídeo. E com um irresistível apelo de custo para as atuais emissoras - com o padrão japonês, bastaria trocar o sistema de irradiação eletromagnética. Com os outros padrões, o próprio modelo de transmissão mudaria.


O custo final das Set-Top Box passaria então a ser o grande parâmetro de avaliação dos sistemas, pois serão estas “caixinhas” que terão de ser compradas por todos os brasileiros em milhões de unidades. De acordo com o CPqD, o padrão japonês é o que conduz ao maior custo final de Set-Top Box, cerca de 5% mais cara que a dos outros padrões. No entanto, achamos que essa diferença ainda não foi corretamente avaliada, pois o custo final de uma Set-Top Box é apenas uma questão de tecnologia. É uma questão de tecnologia, arranjo produtivo e escala, como todo produto de informática. Como já vimos, as Set-Top Box serão necessárias para garantir interatividade em todos os padrões. Tecnologia (patentes e royalties), arranjo produtivo (produção local, importação, impostos) e escala de produção é que vão definir seu custo e seu peso no bolso do cidadão comum. Isso reproduz a mesma problemática enfrentada por nossos PCs e notebooks – impostos, escala e tecnologia. Parece que começamos a descobrir como resolver a questão reduzindo impostos, talvez no caso das Set-Top Box essa questão se resolva mais rápido.

Para avaliar escalas de produção, temos que saber quem está usando que tipo de STB. O mercado japonês é o único comprador das Set-Top Boxes no seu padrão, ante um mercado europeu inteiro comprando modelos do padrão DVB-T, isto determina diferentes escalas – mas escalas no exterior. Estaremos importando STBs? Se formos produzir internamente, temos que considerar o que vem sendo anunciado na mídia: que os japoneses estão dispostos a nacionalizar grande parte de suas Set-Top Boxes e que a questão de preço final acabará se ajustando em arranjos produtivos e acordos comerciais (fala-se em exportação de álcool automotivo em troca de chips, no caso japonês), colocando a questão da escala em segundo plano e facilitando o acesso ao receptor do lado do consumidor final. Também se anuncia na mídia que o grupo japonês é o que está mais flexível na questão dos royalties, o que impacta diretamente no preço dos receptores também.

Um ultimo tópico, também muito comentado na mídia, é a caráter mais democrático de um modelo sobre outro. É obvio que o padrão japonês dificultará a criação e entrada no mercado dos chamados “Canais Comunitários”, pois repete um modelo muito semelhante ao atual, onde a transmissão de TV, agora Digital, será feita por grandes grupos de radiodifusão. Isso desagrada a muitos setores do governo e da sociedade.

Quanto à democratização, tudo depende da regulamentação do Modelo de TV Digital que se quer fazer no Brasil e até aqui, este modelo de negócio ainda não foi definido para poder se dizer alguma coisa concreta. Podemos dizer que o modelo japonês e o o americano são os que menos facilitam modelos de TVs Comunitárias. Aqui, poderíamos dizer que se é uma TV democrática o que buscamos, deveríamos ficar com a TV por IP ou IPTV, abandonando modelos comerciais de televisão, pois a IPTV usa o meio de distribuição de mídia mais democrático de todos os tempos e em todos os países (com as exceções de sempre: China e Cuba): a Internet. Mas isso já seria outra discussão.

Resumindo e finalizando temos que: o padrão japonês é mais moderno e melhor tecnicamente; agrada aos grupos de radiodifusão; reserva nobre espaço para os grupos de telecomunicações; cria oportunidades para indústria eletro-eletrônica e abre enormes oportunidades para a indústria brasileira de software, que se aproveitado poderá representar desenvolvimento econômico e exportação de software (embarcado nas STBs). Infelizmente, temos uma longa tradição em deixar passar oportunidades.

 

* Prof°. Dr. Eduardo Morgado - Prof. Depto Computação - Unesp-Bauru, Coordenador do LTIA - Laboratório de Tecnologia da Informação Aplicada da Unesp e dos programas de parceria com a indústria "Intel Wireless Competence Center", "Macromedia RIA Reference Center" e "Microsoft XML Center".

* Daniel Igarashi Bacharel em Sistemas de Informações - Unesp / Bauru e pesquisador do  Intel WCC - Wireless Competence Center da Unesp / Bauru na área de Embedded Systems e VoIP.